Boletim

Humanitarismo armado

O negro amanhecer do Ocidente sobre a Líbia

Guillaume de Rouville

Tudo começou em 2006, quando Kadafi afogou em sangue uma revolta islamita em Benghazi  [14 manifestantes mortos], com a bênção dos ocidentais que trabalhavam desde 2007 para fazer do líder líbio um homem respeitável. Poucos anos depois, em fevereiro de 2011 teve lugar, também em Benghazi, uma manifestação dos famíliares dos presos "políticos" da revolta de 2006, que exigiam sua libertação. Desta vez, as escaramuças entre manifestantes e as forças da ordem causaram uma dezena de mortes. A partir daí tudo se encaixa maravilhosamente para os ocidentais, que entram em cena para impulsar o desenvolvimento dos acontecimentos em seu benefício depois de "sofrer" as revoltas árabes da Tunísia e do Egito, que derrubaram seus amigos autocratas.
Em seguida, nos apresentaram perante as câmeras algumas ralas "multidões" de rebeldes que, curiosamente, reuniram mais soldados e islamitas que chamavam à guerra civil do que estudantes pacíficos que reclamavam, como vimos na Tunísia e no Egito, a democracia com os seus celulares nas mãos. Com centenas de pessoas criaram uma miragem para anunciar uma revolta geral que não existia. O levantamento se limitava a uma ou duas cidades [Benghazi e Derna principalmente, ambas localizadas na Cirenaica] famosas por sua insubmissão ao poder central e a sua proximidade com os movimentos islâmicos mais radicais da região. Al-Jazeera, a cadeia do emir de Qatar [valioso aliado dos EUA na Península Arábica], que cobriu amplamente as revoluções da Tunísia e do Egito, foi incapaz de nos mostrar as multidões em delírio democrático em Benghazi ou em outras partes do território líbio. Em vez disso, víamos alguns rebeldes de Benghazi empunhando armas pesadas ou dirigindo tanques, e ao ex-ministro de protocolo de Kadafi, Mesmari Nuri, com a Torre Eiffel ao fundo, clamando pela revolução contra seu antigo patrão em nome dos direitos humanos que ele nunca defendeu.
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Economia

África, caminho para o paraíso fiscal

Hilaire Avril

Existe uma tendência emergente na África de criar seus próprios centros financeiros no exterior. Um dos argumentos apresentados é que modernizariam o setor financeiro africano e estenderiam um tapete vermelho em muitos países. Porém, o desastroso impacto dos paraísos fiscais para as economias em desenvolvimento está cada vez melhor documentado. As jurisdições secretas nas ilhas britânicas ou do Caribe são um meio para desviar milhares de milhões de dólares por ano, procedentes de países de baixa renda.
Alguns países africanos têm tradição de segredo bancário e legal em seu território. Mauricio é, há tempos, um paraíso fiscal que dissimula fortunas do olhar curioso das autoridades fiscais e facilita "sua circulação".
O Quênia anunciou em março a possibilidade de criar o Centro Internacional Financeiro de Nairóbi. O que preocupa é que as Zonas Econômicas Especiais do Quênia ofereçam regimes especiais de impostos às empresas de telecomunicações e às operações bancárias.
Instituições internacionais e assessores financeiros falavam das maravilhas da desregulamentação das economias ocidentais como o melhor caminho para conseguir o crescimento econômico. A crise financeira global surgida em 2008 e sua derivação atual não parecem ter afetado seu discurso.
O risco pontual que representam os paraísos fiscais para a África é que exacerbam as dificuldades econômicas que afetam os Estados que dependem da exportação de matéria-prima.
Um país como a Nigéria recebe milhares de milhões de dólares com a venda de petróleo mas não melhora o nível de vida da população porque a inflação dispara e surgem obstáculos para as exportações dos setores que geram emprego, como a agricultura. Se o setor financeiro de um país cria repentinamente um enorme fluxo de dinheiro, sem dúvida terá o mesmo efeito sobre a população.
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Sudão do Sul

Guerra étnica mais intensa e mortal

Charlton Doki

Milhares de mulheres e crianças foram sequestradas e mais de mil pessoas morreram este ano nas sangrentas guerras que travam comunidades do Sudão do Sul por seu bem mais apreciado: o gado. 
Neste novo país independente da África, que produz cerca de 395 mil barris por dia de petróleo, os combates entre as etnias recrudesceu.
Para os sudaneses do sul, possuir muito gado é sinal de riqueza. Nos últimos tempos, os roubos de animais ficaram mais frequentes e mortais. 
O conflito é alimentado pela fácil aquisição de armas por parte da população, e pelas normas culturais que valorizam a propriedade de gado como sinal de sucesso. Ao terminar a guerra civil sudanesa de 21 anos, em 2005, o valor do gado cresceu rapidamente, pois muitos homens decidiram se casar para iniciar uma nova vida, sendo comum pagar com animais o dote da noiva. Um dote pode custar até cem cabeças de gado.
Nos ataques aos condados, as mulheres raptadas são tomadas como "esposas" e as crianças se convertem em seus "filhos", sendo obrigados a aceitar a nova cultura de seus sequestradores. Nos mesmos incidentes, a Missão da ONU no Sudão, com mandato de proteger os civis, e o Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA), agora força armada regular do país, não intervieram argumentando falta de capacidade. É difícil impedir os ataques porque os civis com armas superam os agentes da ordem e a pobre infraestrutura do país dificulta a vigilância. Devido à falta de estradas, um exército pode demorar 72 horas para chegar a um lugar onde há insegurança. Quando chegasse seria tarde demais para deter os atacantes.
Durante a guerra contra o norte, muitas pessoas adquiriram armas. Informes indicam que ladrões de gado teriam obtido novos armamentos, e o governo do Sudão do Sul acredita que foram fornecidos por Cartum. O governo diz ter evidência de que Cartum forneceu armas a milícias para desestabilizar o Sudão do Sul antes e depois do referendo sobre sua independência. (Foto: conflitos no Sudão do Sul)
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