Nos.territórios de Amkoullel, o menino fula

A África do Oeste - região geográfica que é cenário das memórias do escritor malinês Amadou Hampâté Bâ - é espaço de convivência de diversas sociedades com traços culturais particulares.


A época em que se passa o relato do autor - as primeiras décadas do século XX - é o momento de transformações intensas e violentas, marcadas pela penetração e presença cada vez maior do colonizador europeu. Hampâté Bâ descreve essas mudanças, mas a ênfase de seu depoimento recai naquilo que é característico e permanente nas culturas negro-africanas. Exemplo disso são as referências aos fortes vínculos familiares e sociais, à educação como formação integral do indivíduo, e às interações e interdependência das diversas formas de trabalho.


Muito da identidade dessa África originária está presente nas imagens aqui expostas.

Algumas delas são diretamente relacionadas ao texto de Hampâté Bâ. Outras ilustram o ambiente e as práticas mencionadas pelo autor.


Esta exposição virtual reproduz aquela que foi montada em 2003 por ocasião do lançamento do livro de Amadou Hampâté Bâ, "Amkoullel, o menino Fula", publicado pela Casa das Áfricas em parceria com a editora Palas Athena.


A Fotografia e o estudo de África

O desenvolvimento da tecnologia fotográfica ocorreu nos fins do século XIX, coincidindo com a exploração, conquista e colonização da África pelos europeus. As imagens pictóricas ajudaram a fazer a crônica histórica do colonialismo, ao mesmo tempo em que possibilitaram observar a cultura material e as mudanças sociais na África. Os cartões postais com imagens da África do Oeste começaram a ser publicados alguns anos após a chegada dos europeus à região, nos últimos anos do século XIX. Reproduzidos em larga escala, chegaram à Europa onde ajudaram a construir o imaginário relativo ao continente africano.


A coleção de postais "Edmond Fortier/Casa das Áfricas"

Quase todas as imagens apresentadas nessa exposição virtual foram feitas por Edmond Fortier (1862-1928), fotógrafo de origem francesa que viveu no Senegal grande parte de sua vida, onde montou seu estúdio e laboratório.

A obra de Fortier é imensa - cerca de 3.300 originais catalogados, editados e reimpressos em diversas séries - e não há equivalente conhecido no que diz respeito a imagens da África do Oeste no início do século XX. Nenhuma outra produção da época é tão ampla e complexa.

Um trabalho tão impressionante explica-se não apenas pela competência técnica de seu autor, mas principalmente pelo tipo de relação construída com o lugar em que este escolheu viver. Fortier observa e registra todos os aspectos da região como se estivesse mergulhando num universo que tenta compreender. Seu olhar é inconfundível quando comparado ao de seus contemporâneos. Viajante infatigável, Fortier percorreu entre 1900 e 1912 uma grande extensão da África do Oeste, visitando o que são hoje sete países: Senegal, Guiné Conakri, Mauritânia, Mali, Costa do Marfim, Benin e Nigéria.

Nos primeiros anos do século XX ele viajou pelo Senegal e registrou a transformação por que passava o território então dominado pela França, marcado pelo crescimento da cultura intensiva do amendoim visando à exportação. São também anteriores a 1905 registros referentes a regiões que hoje fazem parte da Mauritânia e da Guiné Conakri.

Entre 1905 e 1906 Fortier realizou seu mais longo trajeto pelo interior da África do Oeste, então Sudão Francês, que teve como ponto culminante sua chegada à famosa cidade de Timbuktu, no norte do atual Mali. Ele foi um dos primeiros profissionais a fotografar a cidade, após a ocupação francesa em 1894. Mas talvez as imagens mais importantes de todo o percurso sejam as que Fortier trouxe de sua visita à região das falésias de Bandiagara, território Dogon. Não se conhecem imagens anteriores às suas no que se refere ao local e à sociedade dogon, cujos membros eram, na época, chamados de Habé, o que significa "não islamizado" em língua fula. Djenné, nas margens do rio Bani, a cidade mais antiga de toda a África subsaariana, também foi objeto de seus registros. Desse itinerário, são conhecidas 350 imagens, testemunho único da época. Em maio de 1908, Fortier empreendeu nova viagem, desta vez a regiões costeiras do golfo da Guiné, acompanhando a comitiva do Ministro das Colônias francês, Milliès-Lacroix. São desta série as fotografias dos atuais países Costa do Marfim e Benin. No ano seguinte ele visita Lagos, na Nigéria.

Logo após, em 1910, ele deixa de produzir imagens originais e passa a reeditar inúmeras séries de cartões postais. Essas reimpressões, com numerações as mais variadas, confundem ainda hoje os colecionadores.

Nada se sabe sobre o destino dado aos negativos após a morte do fotógrafo em 1928, em Dakar, no Senegal.

Até o presente, ao que tudo indica, este conjunto de imagens foi estudado apenas por colecionadores de cartões postais. O maior especialista na obra de Fortier foi o francês Philippe David que, além de inventariar os mais de 3.000 registros conhecidos, distribuídos em inúmeras coleções particulares, tentou exaustivamente organizá-los sob os pontos de vista geográfico e cronológico. Esse esforço refere-se particularmente à série chamada "Viagem ao Sudão", realizada por Fortier entre 1905 e 1906 . Exemplo deste trabalho é o mapa reproduzido a seguir, que tenta situar o itinerário do fotógrafo em território africano.

O percurso é sem dúvida impressionante para a época, principalmente quando lembramo-nos que a maioria das atividades coloniais estava restrita à costa do continente. O interior, mesmo se já submetido à dominação francesa, não sofria ainda grande influência européia.

Durante seu itinerário, Fortier documentou principalmente o cotidiano das populações ao longo do rio Níger. Outros aspectos da região como, por exemplo, a elaborada arquitetura em adobe, também foram amplamente registrados.


O interesse da Casa das Áfricas pela obra de Fortier iniciou-se a partir do trabalho realizado em 2003 para a edição brasileira do livro de memórias do historiador e filósofo malinês Amadou Hampâté Bâ, intitulado Amkoullel, o menino fula. O autor, nascido em Bandiagara no ano de 1900, relata nessa obra episódios de sua infância e juventude, transcorridos exatamente na região visitada por Fortier em 1905-1906. Essa impressionante coincidência fez com que fosse possível incluir na publicação fotografias de personagens, construções e paisagens mencionados por Hampâté Bâ em seu relato.

Num primeiro momento, a pesquisa procurou localizar iconografia da época e levou-nos a uma área de trabalho da UNESCO chamada "Memória do Mundo", dedicada à divulgação de imagens antigas, (ver http://www.unesco.org/webworld/mdm/visite/sommaire.html) e ao CD-Rom "Cartes postales d'Afrique de l'ouest (1895-1930)", de autoria da Association Images et Mémoire, sediada na França (ver http://www.imagesetmemoires.com). Os direitos de publicação das imagens do livro foram contratados com esta instituição.

Ainda em 2003, a Casa das Áfricas teve oportunidade de adquirir seus primeiros exemplares de cartões postais originais, através do Centre Edmond Fortier, que disponibiliza informações sobre o fotógrafo na WEB (ver http://home.planet.nl/~kreke003/homfra.htm).

No segundo semestre de 2005, o cartofilista holandês Jacques Krekelaar, organizador daquela instituição, contatou a Casa das Áfricas e comunicou seu desejo de transferir a totalidade de sua coleção particular da obra de Fortier e que se constituía de 1.117 cartões sendo que, destes, 218 referem-se à série mais antiga, editada entre 1900 e 1905. A partir de então a coleção tem sido ampliada constantemente e conta hoje com mais de 4.000 itens.2

No momento, a coleção "Edmond Fortier/Casa das Áfricas" encontra-se em fase de organização e catalogação. Nosso objetivo é digitalizar e indexar o material para disponibilizá-lo localmente e/ou via WEB, de maneira a facilitar seu acesso aos pesquisadores brasileiros.

1 Ver Neudin, L'officiel international des cartes postales (1983).

2 Saiba mais: Através das lentes de Edmond Fortier – A África do Oeste de 1900 a 1912.